Futebol profissional: sonho de guri

Futebol profissional: sonho de guri

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Reportagem de 8 de fevereiro de 2016

Reunidos em um mesmo campo, numa tarde quente de verão, em um dos diversos campos do Complexo Esportivo Paarc Sport, cada um dos quase cem garotos têm o desejo de ser jogador de futebol profissional. Para isso, é necessário que passem pelo popular peneirão, uma avaliação supervisionada por profissionais de diversas áreas esportivas que têm um único objetivo: selecionar os melhores.

Na teoria, parece simples. Mas a verdade é que, quando colocado em prática, o peneirão não é um processo dos mais justos. Os próprios avaliadores reconhecem que não dá tempo de olhar para todos.

Verdinho (foto abaixo) é ex-jogador, tem escolinhas de futebol há anos, e é franco: ganha a atenção quem souber se destacar entre os vinte e dois. “No jogo, você consegue observar melhor dois atletas, no máximo”, explica o treinador.

Futebol profissional: sonho de guri

Há mais meninos recebendo “não” do que aprovados. Uma resposta com um efeito que pode variar bastante de atleta para atleta. Mas que parece ser tão desconfortável para quem conta quanto para aqueles que ouvem.

Adelino Somavilla não é apenas treinador. Também é dono de clube, o Paarc Sport. E, como Verdinho, já passou por muitos momentos assim. “Esses atletas já estão preparados para isso, para o ‘não’. Mas reconheço que em uma avaliação rápida é possível que cometamos injustiças.”

Verdinho vê a resposta negativa como um fator que pode ser motivador, dependendo de quem a recebe. “Às vezes, o ‘não’ deve servir como motivação. Mas em alguns casos o menino para, mesmo. Nós temos que nos preparar para dar a notícia. É um momento difícil tanto para quem avalia como para o avaliado.”

Futebol + educação

E como será para um jovem jogador enfrentar essa barra? Receber de um desconhecido a resposta sobre o talento que possui ou não também é uma arte. Victor Hancke (foto) tem 16 anos e é aspirante a xerifão. Daqueles zagueiros das antigas, mesmo, com bigode e tudo. Mesmo que com essa idade ainda não seja possível cultivar um adorno com a robustez do “biga” de jogadores como Ricardo Rocha, Rivelino e David Seaman. “Eu fiz a barba nas férias, mas aos poucos fui mexendo aqui e ali, agora resolvi ficar com o bigodinho. É charmoso”, brinca o jovem estudante.

Enfeites à parte, Victor sentiu mais a pressão no último peneirão que fez por não conhecer os jogadores que seriam companheiros de time na avaliação: “Fiquei nervoso antes. A gente não sabe como o outro cara joga, corre”.

Moca é preparador físico. Foi jogador de futebol, mas em um determinado momento da carreira percebeu que não tinha a qualidade necessária para conseguir sobreviver como atleta profissional. Foi aí que decidiu investir em um curso superior e se formou em Educação Física. “Eu vim a Santo Ângelo para jogar no Grêmio Santo-angelense. Ao mesmo tempo, comecei os estudos e, quando percebi que não ia dar para seguir, parti para a Educação Física”, explica o profissional, que hoje atua como preparador físico.

O discurso favorável ao estudo, aliás, parece uma jogada bem ensaiada. Todos admitem que, se for para fazer escolha, que seja pelos cadernos.

Adelino destaca que “não é só importante. Isso é fundamental. Em uma atividade aventureira como é o futebol você não pode deixar de perseguir o que é seguro, o estudo. No meu clube nós temos exigências. Se houver desequilíbrio entre a escola e o futebol, não fica”.

Moca defende que a essa importância deve ser exaltada desde cedo. “Sempre cobrei isso dos meus atletas em categorias de base. No futebol você não tem garantias. Pode ocorrer uma lesão e aí só o estudo defende o futuro do cara. Até os 17 anos o jovem deve decidir se quer mesmo só futebol ou vai se dedicar a um curso superior.”

“Jamais pode-se abrir mão do estudo. No futebol, poucos ganham muito. Numa partida o treinador pode te sacar. Já o estudo ninguém te tira, é garantido”, argumenta Verdinho.

Grandes salários? Quase nunca

Segundo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no país, 80% dos jogadores vivem com até dois salários mínimos por mês. Entre eles, muitos jogam até de graça. Os milionários são poucos. Como comparativo, alguns atletas do Santo Ângelo que vieram do centro do país defenderão o clube na segunda divisão gaúcha de futebol por salários de R$ 1100, R$ 1200 por mês, apenas.

Victor completa 17 anos em 2016. Em menos de um ano poderá prestar vestibular. Atento aos benefícios e riscos da carreira de atleta, ele trata de cuidar para não se perder no meio do caminho. Se não der uma coisa, tem a outra para tentar: “Eu sempre quis ser jogador, desde criança. Então resolvi tentar mais uma vez para depois, no futuro, não ficar pensando se eu teria condições ou não de ser atleta profissional. Eu estudo, neste ano termino o colégio, depois vejo se sigo como jogador ou tento algo relacionado a medicina esportiva, fisioterapia”.

O desejo de tantos jovens pelo futebol tem vantagens, principalmente para os clubes. Com jogadores nas categorias de base, as instituições seguem com a possibilidade de, no futuro, com sorte, vender um ou outro jogador e encher o cofre. Ou diminuir o vazio dele. “Se você investir em categorias de base fortes, pode ter um time bom e ainda vender atletas para ter suporte financeiro”, explica Moca.

Vestibular da bola: aprovação para poucos

Mas é perceptível que não há, como em outros tempos, um craque em cada esquina brasileira. Se em clubes de futebol profissionais existem carências, imagine nos grupos de base. Adelino Somavilla lamenta: “A natureza não dá tudo que o cara precisa. Não vemos por aqui nenhum craque”.

Futebol profissional: sonho de guri

Insistência é uma virtude. Mas tem sempre aquele “Joãozinho” que não desiste – mesmo sem habilidade. Em casos assim, pelo menos para o professor Moca, o ideal é conversar com o garoto e explicar que existem outras possibilidades para a vida dele. “Se eu vejo que ele não tem qualidade, aconselho a procurar outra carreira. Você não pode ficar enganando um jovem.”

E, acredite, é muito melhor ganhar um toque de quem sabe do que perder tempo e dinheiro participando de peneirões que só existem para limpar os bolsos de papais sonhadores. “Às vezes nós vemos pessoas enganando pais por aí. Eu acredito que se você faz uma avaliação, um peneirão, não há necessidade de cobrar. O benefício vem depois, se você encontrar um bom atleta. É preciso se informar muito bem sobre quem está organizando a seletiva e se o clube de destino também é uma instituição de confiança”, alerta Moca, que já organizou muitos peneirões nos últimos vinte anos.

Pais que, em muitos casos, mais atrapalham. Jogam sobre os ombros dos filhos desejos e frustrações do passado e tentam transformar o garoto ou a menina no craque que eles não conseguiram ser. “Às vezes nem o menino quer ser jogador de futebol e o pai está ali, insistindo. A gente tem que chegar e explicar: ó, você está mais atrapalhando do que ajudando”, admite Verdinho.

Sempre em frente (e enfrente)

Se o desejo existe e move o pequeno atleta, que este seja o combustível para a corrida pelo sucesso. Mesmo que a dedicação não resulte em sucesso profissional. Pelo menos estes jovens vão poder bater no peito e gritar para que todos saibam que, apesar de tudo, eles seguiram em frente.

E não há negativa que seja capaz de atrapalhar quem sabe o que quer em uma caminhada vitoriosa. Tanto que o próprio professor Adelino, já responsável por tantas reprovações, dá o recado de ouro para todo jovem atleta: “Que volte! Sempre que tiver oportunidade. Temos exemplos de jogadores que foram dispensados muitas vezes e depois conquistaram títulos mundiais. A reprovação não pode significar desistência”.

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