Farra Urbana. O Memorial Coluna Prestes em 2001

Farra Urbana. O Memorial Coluna Prestes em 2001

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Um céu cinza para imagens igualmente assim. Não foi caso pensado, aquela era a data limite para a realização das fotografias que eu teria que revelar e entregar no mesmo dia ao professor de Fotojornalismo da universidade.

Dezembro de 2001. Com câmera, lentes e filmes P&B em mãos, parti para o registro do documentário que teria como tema um dos principais pontos de visitação em Santo Ângelo: Memorial Coluna Prestes. Por pressa e falta de experiência, não fiz o que é mais indicado em uma situação assim: sempre que possível, visitar o local uma ou mais vezes para estudar o ambiente, perceber detalhes que proporcionem boas imagens, tudo para fazer mais rico um trabalho documental. Embora isso possa ter diminuído um pouco a qualidade e variedade dos fotogramas, por outro lado o documentário apresenta a surpresa do próprio autor diante de cenas que não eram agradáveis – tampouco esperadas.

Chegando ali, deparando-me com a má conservação de algumas peças componentes da estrutura, percebi que o oferecido aos visitantes não era compatível com o “mínimo aceitável”. Era sensação de entrar em um banheiro público, como turista, e encontrar dejetos nas paredes. O tempo faz escrever por suas ações algumas linhas que contam a história aos que vêm depois. Mas, quando há interferência do homem – e quase sempre assim é -, este texto pode levar a um caminho diferente.

Os restos das máquinas que antigamente deslizavam por trilhos que transportavam passageiros e cargas quando estradas e automóveis se faziam em menor quantidade, além de sofridos pela ação natural, tinham em si marcas da intromissão pouco respeitosa dos homens, estes mesmos que hoje ocupam espaço em uma sociedade que se considera mais evoluída do que aquela que se servia das linhas férreas para suas viagens.

Ferrugem, riscos e rabiscos diminuíam o precioso valor dos vagões que enfeitam o memorial, construído onde antes havia a Estação Ferroviária de Santo Ângelo. Algumas idéias dependem de horas para iluminar nossos pensamentos. Outras, sequer esperam os galhos ficarem menos verdes para tomar com fogo nossa caixa de bons pensamentos. Uma objetiva 16mm, com grande capacidade de deformação. O céu cinza inspirador, a garoa que resfriava o ambiente, filmes em preto-e-branco e uma imensa vontade de gritar contra aquilo.

As imagens representam tudo o que aconteceu naquele dia, dentro e fora de minha cabeça e máquina fotográfica. São representações frias, às vezes desconfortáveis ao olhar por suas distorções óticas e ausência de foco em determinadas partes, mas que servem para supervalorizar a despreocupação dos homens para com seus bens.

Poucos anos depois, visitei novamente o memorial, já com as reformulações que hoje são percebidas. As peças foram alteradas e, além disso, serviam como espaço para o acolhimento de intenções artísticas, sendo um envoltório para exposições e afins.

É grande desejo que a sociedade saiba relacionar-se com o que lhe pertence. Não sob o pensamento equivocado baseado no “se é público, eu posso interferir”. A sentença marca exatamente o contrário, sendo este “púbico” um alerta que delimita as ações individuais. O público é de todos. É para o todo, não para um.

Este ensaio fotográfico, hoje exposto aqui, busca, além de traçar um paralelo antes-depois, belo-feio, correto-inadequado, fazer querer pensar sobre nossas interferências nesta existência. Toda linha traçada, uma palavra escrita, será referência para alguém mais tarde – e a nós, obviamente. Fechar os olhos e dormir ao fim do dia é mais que o início de um bom descanso. É encerrar uma etapa – entre as tantas que compõem nossa vida – que, desde que preenchida com ações construtivas, servirá para tornar o caminho de quem vem depois muito mais seguro, levando a um curso que ainda não percorremos.

Obs.: Especial fotográfico produzido em 2001

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