Fabiano Millani: A arte de querer muito mais

Fabiano Millani

Especial | Fotos: Outra Estação.com | © Todos os direitos reservados

“Sempre fui apaixonado por desenho.” Quem conhece o artista Fabiano Millani entende um pouco, com essa frase, como foi possível alcançar uma qualidade tão impressionante em uma década e meia envolvido com telas, papéis, tinta, lápis e pincéis.

Foi com 17 anos, em um curso promovido pela prefeitura de Santo Ângelo e ministrado por Edegar Cavalheiro, que Fabiano começou a desenhar para nunca mais parar. Hoje, com 32 anos, se destaca, principalmente, por uma prática que tem perseguido nos últimos anos: o realismo.

São pinturas e desenhos que, se não explicados por legendas, passam facilmente como fotografias, tamanha a riqueza de detalhes e fidelidade aos referenciais reais.

No curso, recebeu informações básicas – até então desconhecidas. Elas lhe abriram caminhos para se aproximar de um universo que sempre o encantou.

“Ali, descobri que havia lápis para desenho, papéis especiais. Pequenos atalhos que me foram apresentados e resolveram muitas questões que eu não conseguiria sozinho e sem muita informação disponível”, lembra, numa viagem mental à segunda metade dos anos de 1990.

A aparente ingenuidade artística de Fabiano Millani no início talvez se deva aos poucos recursos disponíveis para aprender, principalmente na infância: “eu era colono, morava pra ‘fora’ [da zona urbana] até a quinta série”.

Nascido em São Paulo mas vivendo em Santo Ângelo há mais de vinte anos, Fabiano e mais dois irmãos nunca dispensaram a criatividade para se divertir nos primeiros anos de vida.

“Tínhamos a mania de desenhar personagens em papel, pintar e depois recortar. Aqueles eram os nossos bonequinhos de brinquedo, cada um tinha seu próprio Homem-Aranha”.

Não há tristeza no relato que, a quem escuta ou lê, parece remeter a um período de dificuldades financeiras. O que toma forma e ganha força é a evidente vontade de aproveitar o tempo com o que faz bem. E, o melhor, dando vazão à grande capacidade de criação que os três irmãos possuíam. Apesar do talento para as artes visuais de todos, apenas Fabiano Millani apostou intensamente nisso.

Uma mudança importante na carreira se deve à transformação do aluno em professor. Com 17 anos conseguiu frequentar as aulas, mas no ano seguinte sentiu a frustração de o curso não ser oferecido. Foi aí que convidou o amigo e colega André Cavanha e os dois passaram a ensinar novos interessados. “Isso aí mudou muita coisa. Você aprende mais quando ensina. Busca referências, material de apoio para ter embasamento”, reconhece.

Outra alteração em seu modo de vida – esta mais recente – foi fundamental para Fabiano Millani estar no lugar que ocupa hoje. Há cerca de quatro anos ele consegue se dedicar e viver apenas fazendo arte.

Em seu ateliê, no centro de Santo Ângelo, produz e ensina. Tem seu espaço para realizar projetos pessoais e oferecer aulas a estudantes de oito a 75 anos. Na esquina da Marquês do Herval com Barão de Santo Ângelo , desenhos, pinturas, quadros, cavaletes, pinceis, tintas, inspiração e transpiração se misturam em um ambiente que tem perfume de arte e background musical (preferencialmente) rock’n roll.

“Hoje, trabalho oito horas por dia só com arte. Venho para o ateliê com vontade de criar, ensinar. Todos os dias da semana passaram a ser bons. Não tem mais aquela tristeza quando o fim de semana termina e a segunda-feira se aproxima. O prazer de fazer o que se gosta permite ter a satisfação que sinto hoje ao levantar da cama para mais um dia de atividades profissionais.”

Nunca se acertou trabalhando como funcionário de alguém. E não pretende voltar a ser um agora que conquistou sua independência profissional: “dei voltas que não precisava, agora resta recuperar o tempo.”

Se como projeto de vida a situação atual agrada Fabiano Millani, o lado profissional ainda está muito – mas muito – longe da satisfação com a qualidade do que produz: “vejo um quadro que fiz há seis meses e já acho horrível, muito ruim. Só enxergo defeitos. Parece que eu era cego, não enxergava bem”.

Apesar da busca pela qualidade final, a obra pronta não interessa muito ao artista. É o processo de execução de uma pintura, desenho, que fascina Fabiano Millani. É enquanto pincela e rabisca que viaja sem sair do lugar.

A concentração total (“não consigo conversar enquanto faço uma obra”), ao mesmo tempo em que lhe transporta para os mínimos pontos de um quadro, por exemplo, também é combustível para levar o artista aos mais diferentes lugares, em uma sucessão de pensamentos que vão desde questões particulares a lembranças que, de repente, voltam à mente sem um motivo aparente. Isso tudo, principalmente, no ateliê.

Em casa ele prefere dar espaço a experimentações, “aquelas que sujam o chão”. Sua principal tela realista é uma representação do pai, José Roberto Cassarotti. Ele diz que é a maior já pintada até aqui. Em pouco mais de duas semanas, todos os milímetros da obra de quase 1,5 metro de altura foram perfeitamente cobertos com tinta e talento, resultando em uma imagem pouco diferente da fotografia que serviu de base para sua recriação.

Deixar Santo Ângelo em busca de grandes centros e mais reconhecimento ainda não está nos planos de Fabiano Millani. E isso não deve ocorrer tão cedo. “Minha família, amigos, minha filha estão aqui, não tenho motivos para sair. Com a internet, não é mais necessário mudar de lugar para ser visto pelas pessoas”, explica Fabiano.

Não reclama de espaços para expor em Santo Ângelo. Sua única ressalva é quanto à falta de confiança que o brasileiro tem em si – e isso esvazia alguns ambientes artísticos.

A insegurança de outros tempos, hoje já é bem mais contida. Graças ao bom retorno que tem, tanto como professor quanto comerciante, vendendo suas obras para um público da cidade e de fora: “em Santo Ângelo tenho os meus ‘anjos’, que compram sempre, mas posso dizer que um pouco mais da metade do que vendo vai para pessoas de fora”. E esse sucesso com o público de outros lugares não é apenas em relação às telas e desenhos. Entre os alunos que atende em seu ateliê, alguns são de cidades próximas. Viajam especialmente para os encontros.

Com a tarefa de ensinar, Fabiano Millani não apenas dá continuidade à sua arte: estimula qualidades que ainda não haviam sido exploradas. Um exemplo é a aposentada Tereza Leila Silveira. Desde 2010 integra a equipe de alunos do ateliê. Sempre gostou do fazer artístico, mas nunca havia produzido algo. “Cheguei aqui e aprendi. O Fabiano é um mestre. Para mim é uma realização, sempre tive esse sonho. Isso aqui é o meu segundo mundo, quando venho para cá esqueço do resto”, ilustra Tereza, após duas horas de aula em uma quinta-feira.

“É uma satisfação ver o desempenho dos alunos. Às vezes os erros se transformam em acertos. Ali, na aula, tô pintando dez quadros ao mesmo tempo e as chances de eu aprender são maiores”, reconhece o professor. “Todos conseguem, a arte é gigante.”

Não há, para Fabiano Millani, muito de protesto. Nenhum dedo na ferida em suas obras. Não é exatamente nisso que ele pensa quando está criando, embora já tenha usado sua arte para falar do que lhe deixa insatisfeito. “Uma vez fiz um desenho que chamei de ‘Vossa Senhoria’, era uma maneira de criticar esse grande desejo do homem pelo dinheiro, pelas coisas materiais, algo que me incomoda. Mas, de resto, não sou muito de protestar em minhas criações.” Pelo menos conscientemente.

Uma das boas mudanças em sua vida e carreira é o valor que consegue receber por obra produzida, seja encomenda ou não. No início ficava faceiro quando recebia qualquer nota de R$ 5 por um desenho e dava mais destaque à quantidade. Agora, consegue trabalhar em um ritmo que considera mais adequado ao seu jeito de encarar a vida.

Seleciona os trabalhos que quer fazer e cobra o justo, segundo seus critérios. Sem arrogância. Afinal, há poucos anos chegava a trocar telas pintadas por outras em branco para ter como continuar produzindo nas aulas da faculdade – estudou na Unijuí, em Ijuí, e na Fema, Santa Rosa, mas não concluiu o curso de Artes Visuais por questões financeiras.

Agora, com menos demanda, sobra mais tempo para se dedicar à sua constante busca pela perfeição. E quase sempre ele chega muito perto disso.

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