Há motivos para se preocupar com tanta água ainda disponível no planeta?

Há motivos para se preocupar com tanta água ainda disponível no planeta?

Entrevista | Foto: URI Santo Ângelo/Divulgação

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou em 1993 que a partir de então, todo 22 de março seria comemorado como o Dia Mundial da Água.

A data foi criada com o objetivo de alertar a população internacional sobre a importância da preservação da água para a sobrevivência de todos os ecossistemas do planeta.

Para entender um pouco essa importância, leia a entrevista com a professora mestre Maria Lorete Thomas Flores, coordenadora do curso de Ciências Biológicas da URI Santo Ângelo e presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Ijuí.

Cerca de 71% da superfície da Terra é coberta por água em estado líquido. Se existe água em abundância, por que precisamos nos preocupar tanto com esta questão?

Maria Lorete Thomas Flores – A água no planeta está distribuída de diversas formas, em diversos locais, e grande parte é de difícil acesso aos seres humanos. Lembramos que a água não é encontrada apenas em estado líquido (mares, rios, lagos e oceanos), mas também em estado sólido (geleiras) e gasoso (água atmosférica). De acordo com a ANA (Agência Nacional de Águas) estima-se que 97,5% da água existente no mundo é salgada e não é adequada ao nosso consumo direto, nem para irrigar plantação. Dos 2,5% de água doce, a maior parte (69%) é de difícil acesso, pois está concentrada nas geleiras, 30% são águas subterrâneas (armazenadas em aquíferos) e 1% encontra-se nos rios. Em termos globais, o Brasil conta com uma boa quantidade: estima-se que possua cerca de 12% da disponibilidade de água doce do planeta. Mas a distribuição natural desse recurso não é equilibrada. A região Norte, por exemplo, concentra aproximadamente 80% da quantidade de água disponível, mas representa apenas 5% da população brasileira. Já as regiões próximas ao Oceano Atlântico possuem mais de 45% da população, porém, menos de 3% dos recursos hídricos do país. Logo, o uso desse bem precisa ser pensado para que não prejudique nenhum dos diferentes usos que ela tem para a vida humana.

Se é possível dessalinizar a água dos oceanos e torná-la potável para consumo humano, por que não se faz isso com mais frequência?

O processo de dessalinização da água é um conjunto de métodos para retirar a maior parte dos sais minerais de águas salgadas ou salobras a fim de torná-las doces ou potáveis. Esse procedimento pode ser utilizado tanto para a água do mar quanto para o tratamento de águas salobras ou de reservatórios com grandes quantidades de impurezas. A Arábia Saudita dessaliniza cerca de 70% de toda a água doce consumida no país. Outros países que também adotam essa estratégia são Israel, Emirados Árabes, vários estados dos Estados Unidos, Kwait, Japão, Austrália, Argélia, entre outros. No Brasil, nove estados também já apresentam regiões que contam com essa técnica para a geração de água potável. A vantagem da dessalinização é a possibilidade de garantir a distribuição de água potável para regiões carentes desse recurso, podendo transformar-se em uma boa saída para o problema da sede em várias partes do mundo. A principal desvantagem é o seu alto custo, pois, atualmente, é cinco vezes maior do que o tratamento da água para reuso.

Quais as origens dos maiores problemas causados aos mananciais hoje?

Falta de saneamento básico, ausência da mata ciliar e hábitos de brasileiros ameaçam rios. A causa mais comum para a poluição de rios é um sistema de saneamento básico precário ou inexistente. Em muitos lugares no Brasil, o esgoto doméstico é despejado in natura em rios que passam perto de áreas residenciais. A ausência da mata ciliar faz com que a água da chuva escoe sobre a superfície, não permitindo sua infiltração e armazenamento no lençol freático. Com isso, reduzem-se as nascentes, os córregos, os rios e os riachos. Sem ela, a erosão das margens leva terra para dentro do rio, tornando-o barrento e dificultando a entrada da luz solar. A mata ciliar também funciona como filtro, impedindo que os resíduos sólidos sejam levados para os leitos dos rios. Sem a adesão da população à coleta seletiva de resíduos, existe ainda a possibilidade de contaminação através da chegada indevida dos resíduos sólido aos rios. Se os dejetos domésticos não forem descartados adequadamente, eles podem ir parar no meio de rios e córregos, contribuindo para a poluição do local.

Como um indivíduo ou uma família pode contribuir para proteger a água no planeta?

Pequenos gestos do dia a dia como escovar os dentes com a torneira fechada, não demorar no banho, economizar luz, separar o lixo e se ligar à rede de esgotos do município podem transformar-se numa melhor forma de gerir a água e preservar recursos naturais. O cuidado na interferência humana no ciclo hidrológico é essencial para assegurar o futuro da própria humanidade. A quantidade de água disponível, desde que bem gerida, é suficiente para qualquer cenário de crescimento populacional, mas para que a água não seja um fator limitante do desenvolvimento e, mesmo, de sobrevivência global, é essencial que seja gerida envolvendo abordagens técnicas, ecológicas e socioeconômicas. Felizmente, já existem condições e tecnologias para aproveitar a água da chuva, para reutilizar as águas residuais, por mais poluídas que estejam, e para dessalinizar a água do mar e águas salobras. No entanto, algumas destas tecnologias ainda têm custos altos e requerem elevados consumos de energia, além de impacto ambiental significativo.

A bacia do rio Ijuí abastece quais populações na Região?

A população da bacia é de quase 337 mil habitantes, com 79% em áreas urbanas de 36 municípios. A Bacia Hidrográfica do Rio Ijuí tem área total de 10.779,2 km² e quanto ao uso do solo, restam apenas 8,8% de mata nativa, com 88,7% das áreas destinadas a atividades agropecuárias.

Quais os maiores desafios do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Ijuí?

Garantir a sustentabilidade financeira será fundamental para que o Comitê da bacia hidrográfica do Rio Ijuí possa cumprir com os seus objetivos, isto é, empreender estudos e projetos que garantam o uso eficiente, a recuperação e a conservação dos recursos hídricos da bacia. Outra preocupação é a ocorrência cada vez maior dos eventos climáticos extremos.

[+] Veja mais Entrevista aqui

Publicidade