Com Arquipélago, Cristiano Sant’Anna degusta o valor do tempo

Com Arquipélago, Cristiano Sant’Anna degusta o valor do tempo

Entrevista | Foto: Cristiano Sant’Anna/Divulgação

O jornalista Cristiano Sant’Anna lançou um baita livro. Em todos os sentidos, a começar pelas dimensões (42cmx27cm). No recheio, imagens em preto e branco com cenas e personagens de um bairro de Porto Alegre chamado Arquipélago – este, também, o nome do livro.

Foram 18 meses dedicados aos registros. E as histórias encontradas podem ser vistas no livro, à venda em livrarias de todo o País.

Outra Estação – O que levou você a este lugar? As motivações foram mais imagéticas (cenários) ou relacionadas às histórias daqueles moradores?

Cristiano Sant’Anna – Durante o tempo em que trabalhei em jornais, era muito comum irmos fazer cobertura das enchentes sazonais. Eram idas rápidas, pressionadas pelo ritmo de fechamento do jornal diário, e eu sempre fiquei com a sensação de que essa comunidade merecia um olhar mais demorado. O Arquipélago é um bairro de Porto Alegre muito pouco visto, com um modo de vida muito diferente do que se tem do lado de cá da ponte. São 16 ilhas formadas pelo delta do Jacuí. Nelas, está uma comunidade de pescadores que remonta ao século XIX. Pessoas que vivem de frente para o rio, numa relação direta de negociação diária com a geografia e o clima. Se do lado de cá da ponte nós criamos um muro para nos proteger, lá eles se entendem como parte de um sistema de relações: o meio ambiente. Queria contar essa história.

Um fotógrafo sempre inicia um trabalho assim sabendo que, mesmo com planejamento, haverá surpresas que poderão alterar o curso – para o bem ou não. Você passou por isso? Como se adaptou às situações inesperadas?

Cristiano Sant’Anna – Eu sou péssimo em planejamento, eheheh. Quando saio para um projeto, procuro ter o mínimo de imagens mentais pré-concebidas. Isso ajuda a manter a mente aberta e entender sem resistência o que as pessoas estão te contando, suas histórias. O processo de adaptação é contínuo e constante, derrubando preconceitos. Tem um pescador chamado Elton, que mora do lado de um dos pilares da ponte da Ilha da Pintada. Um dia eu cheguei e o cara estava com a casa praticamente embaixo da água. Achei aquilo uma tragédia e fui falar com ele. A resposta: “Que nada. Isso aqui até é bom. O rio fica mexido e o peixe vem quase dentro de casa; eu construí mais alta porque tem enchente todo ano, mesmo.” Então é isso. A realidade é maior do que nossas ideias prévias. É preciso estar aberto pra ouvir. E ter persistência e resiliência.

Nestes 18 meses você encontrou algum personagem que lhe tocou de uma maneira especial?

Cristiano Sant’Anna – Sim. O Merenga. É o pescador que está na capa do livro. Ele se criou junto com os pescadores mais velhos das ilhas e conhece tudo do rio. É capaz de perceber as mudanças no rio pelo cheiro do ar.

Como os fotografados se relacionaram com as imagens feitas por você? Eles foram à exposição, receberam exemplares do livro?

Cristiano Sant’Anna – A principio fiquei preocupado com a reação deles. O livro mostra as pessoas em seu cotidiano. Muitas vezes em situações e posições que não gostaríamos. Quando levei o livro a reação foi incrível. Eles foram ao lançamento. Houve um sentimento geral de gratidão pela visibilidade. Eu fiquei muito feliz, porque era isso que queria. Dar visibilidade a essa comunidade. A melhor parte de trabalhar com essa proximidade geográfica é poder discutir e ter retorno do trabalho.

As fotografias foram feitas em P&B ou registradas em cores e convertidas para o monocromático? A que se deve a opção por esta estética?

Cristiano Sant’Anna – Eu me criei dentro de um laboratório P&B. Quando olhei essas fotos e o rosto das pessoas, achei que a força dessa gente estaria mais evidente no preto e branco.

Quando percebeu que era momento de encerrar os registros e começar a pensar em selecionar o material que seria usado em livro e na exposição?

Cristiano Sant’Anna – Na verdade eu não acho que esse momento chegou. Toda história é um recorte. São algumas histórias. Muito sinceras, mas é uma parte. A questão é que é necessário definir um momento.

Existe o desejo de fazer esta exposição ser apresentada em outras cidades do Estado ou país?

Cristiano Sant’Anna – Muito. Eu lancei o livro no Paraty em Foco. E foi muito bom poder confrontar o olhar de um público que não tem proximidade com a história do livro.

Este é um projeto seu, financiado pela prefeitura de Porto Alegre. As realizações são maiores trabalhando desta maneira, como um profissional independente? Isso tudo em um comparativo com os seus anos como funcionário de Zero Hora e Correio do Povo, por exemplo.

Cristiano Sant’Anna – É diferente. Dentro de uma estrutura tu tens as vantagens da estrutura. Produtor, financeiro, até motorista. No meu caso, eu tenho que cuidar de tudo. Inclusive logística. Dá muito mais trabalho, mas uma liberdade gigante. Esse trabalho não poderia ser apresentado dessa forma dentro de um veículo tradicional. Tenho consciência.

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